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Sinais Vitais nº 54
Maio 2004

 


 

EDITORIAL
A propósito do Dia internacional do Enfermeiro...

Convencionou-se festejar o dia internacional do enfermeiro a 12 de Fevereiro de cada ano. Assim, em todo o mundo milhares de enfermeiros uniram esforços para comemorar este dia em torno de um lema: Trabalhando com os pobres; Contra a pobreza. O lema foi proposto pelo Conselho Internacional de Enfermeiras (ICN) o qual é composto por cento e vinte e duas associações internacionais de enfermeiras de todo o mundo, incluindo a Ordem dos Enfermeiros Portugueses.
Ao nível do nosso País, a Ordem dos Enfermeiros, os Sindicatos e as Associações representativas de diferentes áreas da profissão uniram esforços para trazer a este dia um “colorido” especial.
Verificou-se por parte dos enfermeiros uma adesão muito significativa às iniciativas planeadas, demonstrando que a profissão tem uma relação privilegiada com os pobres e com a pobreza. A este facto não ficou alheia a comunicação social e foi interessante verificar a cobertura que deram aos diferentes eventos e acontecimentos que decorreram por esse país.
Realmente a comunicação social, a sociedade e até nós próprios temos dado pouco significado ao papel que a intervenção dos enfermeiros têm nos ganhos em saúde para a população. Foi bom ver as múltiplas entrevistas, os documentários em jornais, revistas, televisão e os múltiplos relatos de experiências de situações de doença explicitados por pessoas que viveram situações difíceis, onde o papel dos enfermeiros foi evidenciado com relevo.
Se por um lado houve uma mediatização do nosso papel, por outro nos diferentes contextos de acção, os enfermeiros precisam de se organizar, como já o fizeram noutros momentos. Hoje, sentimos uma ameaça à autonomia da enfermagem em diferentes domínios, na gestão de recursos, na formação e na gestão de cuidados, entre outros onde é necessário unir esforços para nos manter vinculados aos princípios, valores e cultura da profissão.
Nós enfermeiros, que sempre entendemos o nosso trabalho de uma forma desprendida, que cumprimos a nossa missão nos contextos de cuidados, de formação e da gestão sem contrapartidas especiais, temos que continuar a tomar as melhores decisões em cada momento e perante cada situação orientados pela ética e deontologia e evidência científica, para que a comunidade continue a encontrar em nós a âncora essencial à preservação do seu bem-estar.
Hoje temos que apostar na nossa responsabilidade com a comunidade elegendo a saúde como um bem mundial duradouro (Hesbeen, 2004), para a qual a nossa participação é imprescindível, apostando na capacidade de estar com o outro e na hospitalidade entre as pessoas.
O investimento actual terá que passar pela clarificação do nosso campo de acção, não nos preocupando apenas com a visibilidade daquilo que fazemos, mas evidenciado os ganhos em saúde da comunidade com aquilo que são os cuidados de enfermagem.

Carlos Margato

 


 

ENTREVISTA
Linhas Orientadoras para a Investigação em Enfermagem

Nota da Redacção
No Simpósio de Enfermagem “Investigação em Enfermagem: os contextos e os resultados” a Revista Sinais Vitais levou a cabo um Painel cujo o tema “Linhas orientadoras para Investigação em Enfermagem: Como porquê e para quê?
Convidou para intervir neste Painel a Enfermeira Professora Doutora Marta Lima Basto, Coordenadora da Unidade de Investigação em Enfermagem e Desenvolvimento das quatro Escolas de Enfermagem de Lisboa, a Enfermeira Idalina Gomes, em representação da Ordem dos Enfermeiros e o Enfermeiro Professor Doutor Manuel Rodrigues, coordenador da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: domínio da enfermagem, das Escolas de Enfermagem de Coimbra.
A Moderar o Painel, em representação da Revista Sinais Vitais, esteve o Enfermeiro Paulo Pina Queirós, Professor Adjunto da Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto.
Optou-se por convidar os colegas coordenadores das duas unidades de investigação já sujeitas a avaliação externa pela Fundação para Ciência e Tecnologia e uma a Ordem dos Enfermeiros. Outras unidades de Escolas de Enfermagem se poderiam ter convidado, mas por questões de abrangência entendemos mais útil esta opção, dada a experiência que podiam partilhar.
Por limitações de espaço vamos apenas apresentar as comunicações dos intervenientes, optando por não colocar as questões e as respostas decorrentes do debate a seguir.

Linhas orientadoras para Investigação em Enfermagem: Como porquê e para quê?

Professor Doutor Manuel Rodrigues, coordenador da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: domínio da enfermagem, das Escolas de Enfermagem de Coimbra.

A todos muito boa tarde, saúdo a organização deste evento e todos os que ainda aqui estão. Escolhi para a minha apresentação o tema: “Novos horizontes para a enfermagem cientifica”. Eu, costumo seguir a minha orientação nesta lógica de educação e investigação e penso que a evolução em educação, nos últimos tempos e a formação dos enfermeiros nos últimos tempos tem contribuído para que hoje possamos falar em investigação e situarmo-nos numa nova linguagem
1 - Os desafios de formação: (num percurso de 20 anos os enfermeiros de habilitações académicas de nível básico e secundário, para uma expansão significativa de habilitações ao nível de licenciatura, mestrado e doutoramento).
Nesta tarefa os enfermeiros superaram barreiras socio-culturais, confrontaram-se com velhos estereótipos, trabalharam por vezes em condições de desigualdade face a outros profissionais.
Uma enorme capacidade de superação caracterizada pela preserverança nos objectivos e grande resiliência desenvolvida ao longo da sua actividade profissional, tem permitido aos enfermeiros tornear as dificuldades e seguir em frente.
Nestes últimos anos a conjuntura caracterizada pela anunciada falta de enfermeiros e por tanto uma previsível facilidade de emprego as escolas de enfermagem têm sido procuradas e assistimos hoje a uma espécie de corrida ao ouro através da criação desesperada de cursos justificada pela desvalorização e falta de enquadramento empresarial de Cursos que proliferaram nas Universidades. Esta mais valia actual da enfermagem tem que ser rapidamente protegida e acautelada para que o ensino de enfermagem perca a dignidade e a especificidade que durante muitos anos teve a marca da diferença e da qualidade.
2 – Da Formação para os desafios da investigação: O boom de formação dos enfermeiros, graduada e pós graduada gerou entre os enfermeiros uma nova tendência que podemos designar como a “emergência da consciência e cultura científica”.
A cultura científica implica dos sujeitos uma atitude atenta crítica e construtiva da realidade experiencial. Implica estar atento às propostas das comunidades científicas e ao processo de produção de ciência e de cultura.
A cultura científica implica valorizar o conhecimento científico enquanto necessidade humana e perceber que a investigação e educação se interpenetram no percurso prudente daquele que procura uma ideia esclarecida dos factos e de si. O conceito de “cultura científica” emerge do desenvolvimento da “sociedade da informação e do conhecimento” e impõe-se como um compromisso (Rodrigues, 2002). O conhecimento científico é uma necessidade humana e a investigação e educação interpenetram-se no percurso prudente daquele que procura uma ideia esclarecida dos factos e de si .
3 – As Unidades de Investigação e a Enfermagem Científica
Nestes últimos anos emergiu o conceito de UNIDADE DE INVESTIGAÇÂO que assenta na existência de uma equipa cujos elementos desenvolvem a sua actividade de IeD, num determinado domínio científico ou tecnológico ou em domínios de intervenção multidisciplinar, partilhando um ou mais propósitos comuns. De acordo com o Regulamento do Programa de Financiamento Plurianual de Unidades de IeD (2002), cada Unidade deve possuir a massa crítica necessária para alcançar os seus objectivos, o que, em princípio, requer que seja integrada, no mínimo por três doutorados com currículos científicos de mérito, sendo um deles o coordenador científico, o qual assegura a liderança científica e é responsável pelas actividades de gestão. Uma Unidade pode organizar-se por linhas de investigação em função do tipo de projectos que a integram e devem ser acolhidas por Instituições de Ensino Superior  que demonstrem competência para disponibilizar instalações, infra estruturas e recursos humanos.
Unidades de Investigação têm como finalidade a produção científica, em ramos específicos do saber. No entanto, essa produção científica que emerge da Unidades de Investigação, deve ser obrigatoriamente avaliada por uma comissão de peritos, principalmente estrangeiros, com base em critérios internacionalmente aceites. a acreditação de Institutos, Laboratórios e Unidades de Investigação é crucial para o princípio da equidade.
De acordo com o DL nº 205/2002 que aprova a Lei Orgânica do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, indica como uma das atribuições deste ministério: “ Promover a difusão da informação científica e técnica e a cultura científica dos cidadãos” artº 2 alínea g). Por sua vez cabe especificamente à Fundação para a Ciência e Tecnologia (artº 20, 2) dar continuidade a esse esforço de promover a cultura científica e tecnológica, apoiar e avaliar as Unidades de Investigação.
Importa perceber que sem apoio e financiamento não há investigação científica viável e útil. Comparando os dados relativos à percentagem do PIB dirigido há investigação, verificamos que existe diferença entre a Europa (1,98) em relação ao Japão (2,98) ou EUA (2,80). Ao nível da Europa podemos verificar uma nítida desigualdade entre Portugal (0,48), Grécia (0,67) e Espanha (0,96) em contraste com a Suécia (4,27), Finlândia (3,49) e Alemanha (2,49).
Está o grupo profissional de enfermeiros motivado para aproveitar os recursos de investigação disponíveis, e afirmar o seu direito a uma partilha por direito de parte desses recursos?
Graças ao esforço que alguns enfermeiros fizeram nestes últimos anos de colocar a sua fasquia de habilitação académica ao nível de doutoramento e pós doutoramento, é possível neste momento, apresentar um corpo de massa crítica capaz de ser reconhecida e respeitada pela comunidade científica e almejar ao necessário financiamento.
Esta realidade que podemos considerar histórica para a enfermagem, deu os primeiros passos ao serem reconhecidas pelo Painel de Peritos Internacional de duas Unidades de Investigação Científica em Portugal (Coimbra e Lisboa), o que pode abrir caminho a uma nova cultura e ao desenvolvimento de núcleos de investigadores enfermeiros desenvolvendo linhas de investigação e integrando projectos mais vastos de natureza interdisciplinar.
A acreditação das Unidades de Investigação obedece a critérios de elevada exigência que tenderão a aumentar de dificuldade e a ser cada vez mais selectivos nos próximos tempos.
Definiram-se assim um conjunto de critérios rigorosos e fortemente selectivos a que os enfermeiros investigadores estão desafiados a almejar:
1º - Produtividade científica e tecnológica de qualidade: Publicações em revistas estrangeiras com factor de impacto, especialmente ao nível do (“Science Citation Índex).
A necessidade de organizar a produção científica dos enfermeiros é uma necessidade urgente, criar uma base regular de partilha entre a massa crítica de investigadores em enfermagem, seguindo um modelo de organização que impulsione a mudança e a inovação e o progresso da enfermagem científica. Justificar perante o Estado que a produção científica de enfermagem merece ser financiada, pela sua relevância na produção de conhecimentos útil para ganhos em saúde. Aparecer publicamente a defender posições firmes, cientificamente fundamentadas e a aceitar o desafio de não fugir ao debate e de comentar o trabalho de outros. Desenvolver projectos de investigação que precisem e explicitem a linguagem científica de enfermagem e focalizem a complexidade de cuidar. Definir uma estratégia clara de divulgação da produção científica dos enfermeiros. Selecção dum leque de revistas com referee de alto impacto e estimular os enfermeiros para esses canais de pesquisa e de leitura. Definir um “perfil leitor” “sistematização de procuras” “necessidades de aplicação”. Evitar o efeito de confinação perfeitamente incompatível com a Universalidade do saber científico. Balançar-se para um desafio de criação duma revista Nacioal de Enfermagem Científica capaz de desafiar os indicadores dos melhores índices, como seja o Science citation Index. Na senda do American Journal of Nursin, Journal of Advancing Nursing, Nursing research entre muitos outros).. Aplicação e transferibilidade dos produtos produzidos
2º - Produção científica em co-autoria, indicador da cooperação internacional. Os enfermeiros não podem descurar uma visão de organização em rede e cooperação interintitucional e Internacional.
3º - Sentido de unidade e organização. As Unidades de investigação deverão levar a sério na sua organização, tal como recomenda o painel de peritos, a concepção lógica do “Desenho de Redes de Problemas de Investigação”, evitando fragmentação.
4º - Capacidade de organização de acções de formação Pós-Graduada.
5º - Orientação de teses de mestrado e doutoramento.
6º - Participação em projectos de IeD e grau de aplicação de produtos desenvolvidos.
7º - Possuir meios para desenvolver IeD (instalações, biblioteca, equipamentos, apoio técnico e administrativo.
A Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Domínio de Enfermagem, acreditada este ano, pretende orientar-se  para o desenvolvimento da Enfermagem Científica, produzindo conhecimento científico útil.  Esta Unidade de UI&D, é acolhida pela Escola de Enfermagem Dr Ângelo da Fonseca e pela Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto em parceria, e pretende ser um Centro de Referência na Investigação Científica em Ciências da Saúde numa perspectiva interdisciplinar e especificamente no desenvolvimento da Enfermagem Científica.

Pode visitar a página da Unidade em www.eseaf.pt.

 

Marta Lima Basto , Enfª. Doutora. Coordenadora da Unidade de Investigação & Desenvolvimento em Enfermagem (Lisboa)

Os meus agradecimentos pela oportunidade de poder estar aqui a falar sobre a Unidade de Investigação & Desenvolvimento em Enfermagem, que é recente, foi criada em Novembro de 2001. Vou concentrar-me nalguns aspectos mais práticos. Quero dizer que esta unidade de investigação foi criada pelas 4 Escolas Superiores de Enfermagem, públicas, de Lisboa, no âmbito do programa de fusão destas escolas numa escola só - a Escola Superior de Enfermagem de Lisboa.Gostaria de realçar a mais valia de uma unidade de investigação: passar da investigação em enfermagem exclusivamente académica para uma investigação para o desenvolvimento, quero dizer com isto, para uma investigação que não é feita prioritariamente para obter um título académico, com limitações de orientações que recebemos, de tempo, etc., para uma investigação que possa ser feita sobre os problemas que nos preocupam na prática dos cuidados e portanto que tenham ou que possam ter efeitos mais imediatos no desenvolvimento do conhecimento utilizado pelos enfermeiros no seu dia-a-dia.O que, do meu ponto de vista, caracteriza uma unidade de investigação é essencialmente o apoio dos pares, o que faz a unidade é a possibilidade de eu poder contar com outros colegas que estão interessados em desenvolver investigação ou no mesmo tema ou noutros temas a fins, mas que estão preocupados em desenvolver o conhecimento em enfermagem. Portanto, este sentido de que entro como investigador para uma unidade e portanto posso esperar e devo esperar, o apoio doutros colegas, mas também eles devem esperar o meu apoio, nas formas mais variadas, penso que é o sentido principal da unidade de investigação.Um dos aspectos que me parece importante em qualquer unidade e que também tentamos que caracterize a nossa é não ver qualquer contradição entre tentar desenvolver o conhecimento de enfermagem -  conhecimento utilizado e criado pelos enfermeiros - e a colaboração com  investigadores doutras áreas afins. Parece-nos, antes pelo contrário, uma mais valia. O que quero dizer é que a formação de equipas multidisciplinares é muito importante e é o que temos tentado também desenvolver. A admissão na nossa unidade, como noutras, é voluntária obviamente e aquilo que nós esperamos é que grupos de enfermeiros ou grupos de enfermeiros com outros profissionais apresentem projectos de investigação que têm de se enquadrar nas linhas de investigação da Unidade que, aliás, são suficientemente latas para acolher muitos  e diversos interesses. Mas tudo começa pela decisão de um grupo de enfermeiros de apresentar um projecto de investigação que, naturalmente, tem de ser avaliado pelo concelho científico. O e-mail da Unidade é .Quero dizer-vos que nos candidatámos, tal como a unidade de investigação de Coimbra ao co-financiamento da Fundação para Ciência e Tecnologia. É uma experiência que vale a pena ter, ser submetido à avaliação de um painel de peritos, neste caso quase todos estrangeiros, é um estímulo para podermos desenvolver o nosso trabalho com mais segurança.Gostaria de vos falar das linhas de investigação da nossa Unidade que correspondem aos programas. Temos um programa que se intitula: “Cuidar em enfermagem ao longo da vida”, que está subdividido, desde há pouco tempo, no Subprograma 1 – “Saberes e práticas”, que é coordenado por mim e o subprograma 2 – “Experiência vivida”, coordenado pela Professora, Enfermeira Maria Antónia Rebelo Botelho. O programa “Saúde e desenvolvimento” é coordenado pelo Professor Daniel Sampaio, psiquiatra. Para terem uma ideia dos projectos que estão em curso, vou dar alguns exemplos. Em 2003, desenvolveram-se vários projectos, no subprograma  “Saberes e práticas”: “Avaliação da qualidade de vida do idoso em centros de dia e lares”, “Administração terapêutica por via oral, modificação de fórmulas farmacêuticas sólidas”(uma questão que há que analisar, como administrar medicamentos que têm fórmulas diferentes), “Educação do diabético na mudança de comportamentos, que estratégias”, “Carta de alta, transferência”, “Os registos, retrato da prática profissional” e em 2004 iniciaram-se trabalhos essencialmente à volta das práticas de enfermagem  em contexto hospitalar. Exemplos dos trabalhos que estão agrupados no Subprograma 2 e que correspondem a outra linha de investigação: “A vivência do sofrimento no doente traumatizado vertebro-medular, em situação de paraplegia”, “A experiência de homens cuidadores de mulheres que sofrem de demência”, “Estigma e discriminação da pessoa infectada com VIH, SIDA”. E para iniciar em 2004, um projecto para o qual ainda estamos a admitir investigadores para formar a equipa, “A prática dos cuidados de enfermagem olhada à luz de uma reflexão ética. Uma experiência vivida”, portanto pode-se constituir uma equipa com pessoas de várias áreas, com experiências vividas por enfermeiros e utentes. No Programa Saúde e Desenvolvimento: os “Discursos sobre a doença mental no Estado-Novo”, “Stress, coping  e qualidade de vida da pessoa com diabetes mellitus”, “Como vivem as crianças e os adolescentes o internamento em psiquiatria”.Julgo que é fácil calcular as dificuldades porque passam, de uma forma geral, os enfermeiros que querem fazer investigação, mas de uma forma especial aqueles que decidem fazer investigação nos seus serviços, portanto sem dispensas especiais do seu trabalho. É através da iniciativa dos próprios enfermeiros da apresentação de projectos de qualidade, da garantia de estar bem apoiados por outros colegas em unidades de investigação que a pouco e pouco se vai conseguindo facilidades no horário, financiamentos, etc. Como certamente os colegas que apresentaram aqui trabalhos já sentiram na pele, é esse o processo a seguir.Gostaria de dar alguns exemplos das actividades que estamos já a desenvolver. Como já expliquei, uma das nossas intenções é alargar as equipas a investigadores de outras áreas disciplinares e temos algumas, mas gostaríamos de as alargar ainda mais. Continuamos os contactos internacionais, temos feitos vários mas com pouco efeito prático, no sentido que o Manuel Rodrigues já disse, ou seja, fazer trabalhos em conjunto e isso ainda não aconteceu. Continuar os contactos com as unidades de investigação em enfermagem existentes em Portugal e esses já estão a ter regularidade e portanto vamos concretizar brevemente aquilo que podemos fazer em conjunto, como por exemplo criar uma base de dados da literatura cinzenta de enfermagem, reforçando aquilo que já foi dito pelo Manuel Rodrigues, promover conferências que facilitem o contacto com a investigação qualitativa. Já foi feito um encontro organizado por esta Unidade com o Walter Hesbeen e este ano vamos ter um com a Maria Grypdonck em Junho. Queremos realizar uma missão a uma universidade, neste caso à Faculdade de Enfermagem da Universidade de Turku, na Finlândia. Isto é uma intenção que temos no programa da acção e não sei se vai ser possível. Colóquios para apresentação de trabalhos realizados no âmbito de programas da Unidade, divulgação da Unidade no meio académico, debatem sobre a essência da disciplina de enfermagem. Isto no plano de acção para 2004. Aumentar o acervo documental da biblioteca da Unidade, apesar de utilizarmos todos os centros de documentação existentes. Colaboração no doutoramento em enfermagem em colaboração com a Universidade de Lisboa, visto que já foi criado o doutoramento em enfermagem e já foi assinado um acordo entre as quatro Escolas públicas de Lisboa com a Universidade de Lisboa e esta unidade sente a responsabilidade de dar a sua colaboração também.Aquilo que realmente tem tido mais impacto, até agora, neste pouco tempo de vida que temos, são os seminários de investigação para enfermeiros doutorandos. Tem uma frequência mensal, tem regras, as pessoas apresentam os seus projectos, são criticados pelos colegas e pelos orientadores quando já têm orientadores, e também há convidados a propósito dos temas que estão a preocupar os próprios seminaristas (o nome está correcto!). Os seminários temáticos, já mencionaram aquele que esperamos realizar este ano. Os seminários metodológicos com os investigadores, orientados pelos coordenadores de cada programa. Temos realizado mas vamos intensificar ainda mais o apoio bibliográfico a outros investigadores. Temos respondido a várias solicitações de enfermeiros, quando nos pedem nós tentamos fazer esta ligação, mas como já foi dito, um dos nossos problemas é a falta de conhecimento sobre o que os outros andam a investigar, mesmo dentro do nosso país, que é pequeno. A orientação de dissertações de mestrado e teses de doutoramento é outro tipo de actividade, visto que um dos interesses é fomentar a investigação em todas as circunstâncias, tanto pode ser em acções de formação em determinados serviços de saúde como pode ser através da formação a nível de mestrado ou a nível de doutoramento.A revista “Pensar Enfermagem”, que era uma revista da Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, foi modificada, temos um novo conselho editorial e portanto já há um ano que a revista está integrada nesta Unidade. O Contacto é um boletim informativo simples entre os investigadores mas também o enviamos às outras unidades de investigação e para outras pessoas ligadas a esta unidade.Incentivamos, pelas razões já ditas, a publicação em revistas nacionais e estrangeiras. Há a intenção, este ano, de um investigador publicar um livro. Incentivamos idas a congressos internacionais, que são essenciais não só para apresentar trabalho e ser sujeito a críticas como para contactar com colegas dentro das suas áreas de interesse.Para terem uma ideia do funcionamento destas unidades, que têm as suas dificuldades, para 2004 precisamos muito de ter uma secretária, porque é muito difícil funcionar sem apoio administrativo ou muito pouco, da instituição de acolhimento que neste caso é a Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende. E naturalmente a criação de um sítio para Unidade.

 

Enfermeira Idalina Gomes, em representação da Ordem dos Enfermeiros

Como membros da comissão nacional da formação em enfermagem da Ordem dos Enfermeiros no âmbito das nossas reflexões, no que concerne a investigação em enfermagem, cinco questões fundamentais se nos colocam:

Qual a evolução da investigação em enfermagem Portugal?
Qual o objecto da investigação que se faz em Portugal, no âmbito da enfermagem?
Em que contexto?
Onde se encontram divulgados os estudos realizados?
Para que outras pessoas a eles possam ter acesso e para que possam ser  submetidos à discussão crítica no seio da comunidade científica condição fundamental para a objectividade, credibilidade da investigação e para o desenvolvimento da profissão. A este propósito Popper (1992, p.78) refere que a objectividade não é uma questão individual, mas uma questão social da sua crítica recíproca.
A investigação produzida esta a ser utilizada na prática de cuidados e tem reflexos na qualidade da prestação de cuidados?
Quem são os vários actores intervenientes no contexto da investigação em enfermagem e qual o seu papel?
Face a estas interrogações, que urgem responder, pareceu-nos importante a Ordem analisa-las e compreende-las para em conjunto delinearmos e implementarmos estratégias no sentido de lhes dar respostas.
Qual a evolução da investigação em enfermagem, nomeadamente em Portugal?
Antes de entramos na evolução da investigação em enfermagem em Portugal, para uma melhor compreensão do caminho que ela tomou, convém situa-la a nível internacional. Como referem Basto e Soares(1999, p33) há autores que atribuem a Nigthingale (18?) o mérito de ter sido a primeira enfermeira a fazer investigação, ao ter colhido dados estatísticos para demonstrar a grande mortalidade dos soldados britânicos internados em hospitais de campanha, em comparação como os internados em hospitais civis e os ter utilizado para influenciar o poder político a fazer reformas nas condições de higiene e salubridade dos mesmos o que reduziu drasticamente a mortalidade dos soldados.
Porém é nos Estados Unidos da América que a investigação em enfermagem mais se desenvolve e influência a profissão em todos os continentes (Lima Basto e Soares (1999, p33). Como referem essas autoras, fundamentando-se em Gortner e Nham (1977) foi decisivo para o incremento da investigação em enfermagem o facto de ter sido criado em 1899 o Teachers College da Universidade de Columbia, Nova York, um curso em Hospital Economics que tinha como finalidade preparar enfermeiras para ensinar em escolas de enfermagem e em 1907 ter sido criado, na mesma Universidade, o Departamento de Enfermagem e Saúde, que leccionava cursos de pedagogia e saúde pública. Estando esses cursos integrados nas Universidades e para que a enfermagem fosse considerada como uma disciplina, obrigava a que os mesmos fossem aceites em todos os programas básicos e de graduação. Assim, as enfermeiras do Teachers College investem na obtenção de graus académicos- bacharel, mestrado, e doutoramento. Este facto influência decisivamente o curso da investigação para problemas relacionados com a formação em enfermagem. Os estudos das enfermeiras em áreas que não a da enfermagem também influenciou significativamente a opção da abordagem metodológica (quantitativa, qualitativa).
O início da investigação, tendo como foco a prática data da década de 20 e primeiros anos da década de 30, por se ter começado a perceber a necessidade de avaliar os procedimentos de enfermagem. Mas apesar do que foi referido, só em 1995 e 1965 se começa a notar de uma forma mais sistemática a viragem no sentido de dirigir a investigação para a prática dos cuidados de enfermagem como uma condição para ultrapassarem o seu estatuto de submissão ao estudo de outras disciplinas. Assim incrementam-se estudos sobre relação enfermeiro/doente, qualidade de cuidados, grupos de risco (Lima Basto e Soares (1999).
No que se refere a Europa só nos anos 60 é que a preocupação com a investigação emerge, questões políticas e económicas estão na base destas diferenças (Lima Basto e Soares (1999).
Nos anos 70 a investigação começa a ser vista como uma responsabilidade colectiva da profissão e das associações ao invés de ser um trabalho de iniciativa individual em toda a Europa são tomadas medidas que visam desenvolver a investigação em enfermagem.
Na década de 80 com a integração da enfermagem nos estabelecimentos do ensino Superior aumenta o número de enfermeiras preparadas para fazer investigação e percebesse cada vez mais que a investigação em enfermagem tem que desenvolver-se de uma forma mais integrada numa cultura e prioridades dos sistemas de cuidados de saúde na Europa.
Assim em 1996, um comité de peritos do Conselho da Europa formula um modelo para o desenvolvimento da investigação em enfermagem que faz sair um relatório com recomendações e estratégias para o desenvolvimento da investigação em enfermagem na Europa (Lima Basto e Soares (1999).
Feito este breve enquadramento contextual estamos em condições de compreender a evolução da investigação em Portugal. Basto (1998), refere que nos anos 50 se iniciaram alguns trabalhos académicos do tipo descritivo ou estudo de caso que são considerados inovadores para uma época em que o curso de enfermagem se centrava essencialmente nas patologias e nas técnicas.
Em 1967 inicia-se o ensino da investigação em enfermagem na Escola de ensino e administração em enfermagem. A década de 70 caracterizou-se pelo contacto das enfermeiras com metodologias de investigação utilizadas nas ciências sociais e pelo início da realização de trabalhos de investigação no âmbito de cursos de especialização em enfermagem (Curso de Especialização em Enfermagem de Saúde Pública) (Lima Basto e Soares(1999, p36). Em 1982 a primeira enfermeira Portuguesa adquiri o grau doutor. Em 1992 iniciou-se o primeiro mestrado em ciências de enfermagem.
Quanto ao método utilizado na investigação a evolução tem sido no sentido de passar de estudos exclusivamente descritivos, para estudos comparativos, experimentais, ground theory e estudos filosóficos.
Qual o objecto da investigação que se faz em Portugal, no âmbito da enfermagem?
À semelhança do que aconteceu no panorama internacional, a evolução do conteúdo da investigação em enfermagem em Portugal tem sido no sentido de mudar o seu foco de atenção dos enfermeiros para os cuidados de enfermagem de modo a de produzir mudanças mensuráveis na prática que fundamentem os cuidados que prestamos.
Quanto a logística tem sido no sentido da passagem da utilização exclusiva de recursos humanos para obtenção de fontes de financiamento, utilização de meios informáticos e de base teóricas.
Num estudo realizado por Basto e Soares (1999) em realizaram uma meta-análise dos estudos realizados em Portugal nos últimos dez anos, que tinha como finalidade contribuir para a análise da investigação em enfermagem feita por enfermeiros chegaram, entre outras, as seguintes conclusões:
persistência de estudos sobre enfermeiros;
os aspectos metodológicos são semelhantes aos referidos nos outros países estrangeiros;
poucos estudos sobre o padrão histórico;
poucos estudos sobre os resultados dos cuidados de enfermagem;~
objecto de estudo, especialmente prestação de cuidados. Estas autoras gratificam-se pelo facto de, apesar do nosso atraso tradicional, o ênfase dado aos estudos sobre prestação de cuidados serem claramente vantajosos. Basto e Soares (1999, p44)
A este mesmo propósito Lopes (2001, p31); Abel Paiva (2001) Otilia Teixeira (2001, p33) realizaram uma tentativa de revisão integradora, foram analisados 315 documentos (resumos de estudos e artigos publicados) com a intenção de perceber o estado da arte da investigação em enfermagem através da análise de trabalhos de investigação nacionais (190) e internacionais225 considerando o contexto do sujeito, da profissão e da acção (Le Boterf, 1994,1995; Rebelo, 1996). Dos 190 trabalhos analisados 52 relacionavam as práticas de enfermagem com o contexto do sujeito, 36 com o contexto da profissão e 102 com o contexto da acção, desta análise ressalta que são muito poucos os estudos que dizem respeito ao contexto da profissão (Teixeira 2001). Os estudos realizados com o contexto da profissão desenvolveram-se a volta dos seguintes temas:
Cuidar (no hospital, do idoso com doença crónica, em fim de vida, no domicílio, etc.)
Representações (da profissão da doença) percepções, opiniões, satisfação ( do enfermeiro, do utente)
Comunicação /relação
Desenvolvimento de competências (estratégias de poder do doente, do enfermeiro, etc.)
História de enfermagem (Teixeira 200, p33).
Segundo esta autora os conceitos explicitados nos trabalhos analisados eram muito amplos e ambíguos, existindo uma falta de explicitarão dos conceitos o que dificulta a sua operacionalização. Relativamente a perspectiva teórica, , verificou-se que alguns estudos se apoiavam em modelos teorias de enfermagem em autores como: Jean Watson, Patricia Benner, e Colliére, embora muitos outros se baseassem em teorias de outras áreas disciplinares como: psicologia, sociologia com destaque para as questões do género e das representações sociais e alguns não faziam menção ao referencial teórico utilizado. Pelo que é fundamental questionar as bases teóricas em que assentam estes estudos de forma a clarificar os modelos teóricos que se esperem orientem a prática profissional dos enfermeiros e para acabar com a grande distância que existe entre as intenções e a prática quotidiana.

 


 

Duplo emprego, apenas uma reflexão

Autora: Fernanda Isabel Mestre Grou

Ao escrever este pequeno apontamento pretendo apenas realizar uma reflexão crítica sobre o duplo emprego e as suas consequências.
À dias após mais uma daquelas maratonas de trabalho, 16 sobre 16 horas, que deve ser familiar a muitos de vós, dei por mim a pensar sobre as motivações que levam tantos enfermeiros, como eu a ter duplo emprego e como isso influência o nosso desempenho profissional e a nossa vida pessoal.
Vários são os factores que na minha opinião levam à procura do duplo e às vezes do triplo emprego
- a falta de enfermeiros que se faz sentir em todo o país, favorece o duplo emprego tanto dentro da instituição em que se trabalha, como noutras instituições, o que é permitido pelo governo que não tem capacidade de dar resposta às carências existentes, sendo vários os serviços que entrariam em rotura completa senão se recorresse a esta solução.
- a remuneração auferida que ainda deixa muito a desejar quando comparada com o que auferem outros licenciados, e considerando que todos procuramos satisfazer as nossas necessidades básicas, inicialmente e à posterior  influenciados pela sociedade de consumo essas necessidades vão aumentando e o facto de poder auferir mais e aumentar a nossa capacidade financeira é um cenário que nos atrai e que nos vai progressivamente deixando “ prisioneiros do dinheiro”.
Tantos colegas  que como eu dependem economicamente do 2º emprego, pois o seu ordenado “ sugado” pelas despesas da casa e carro!!
- a considerar tambem o facto de trabalharmos por turnos que nos proporciona uma sensação de que temos muito tempo livre e que acabamos por “aproveitar “ a trabalhar.
Sinceramente como influência o meu desempenho profissional o facto de trabalhar em duplo, não o sei muito bem mas uma coisa é certa, nesta experiência nem tudo è tão negativo como muitas vezes se faz passar a ideia.
Esta experiência também tem sido enriquecedora tanto a nível profissional como pessoal, ganhei maior confiança no meu desempenho, adquiri novas competências na area da hemodialise, que desconhecia por completo, e pude- me aperceber da realidade do doente insuficiente renal crónico em tratamento.
Tal como eu, acredito que outros colegas tenham a mesma opinião e experiências similares,  pois na maior parte das vezes o “ duplo” é numa area diferente daquela em que desempenhamos as nossas funções habitualmente
Procuro sempre, embora por vezes não o consiga, estar disponível para ouvir o doente e com ele estabelecer uma relação de confiança, que favoreça uma relação terapêutica, e desde que acumulo funções essa noção está muito mais presente pois o doente não pode ser culpabilizado pelas minhas opções.
Sempre defendi que ao contrário do que diz o velho ditado “ o saber não ocupa lugar , que o saber ocupa lugar...o saber ser; o saber fazer; saber estar!!!!
Às vezes sou tentada a pensar que somos quase “super mulheres ou homens “ pois temos dois empregos, continuamos a investir na formação profissional, procuramos estar disponíveis para os outros e ainda temos uma família!

 


 

Supervisão Clínica de alunos de Enfermagem

Autores: Regina Maria Pires; Ernesto Jorge Morais; Margarida Reis Santos; Maria Cândida Kock; Maria Dolores Sardo; Paulo A. Puga Machado

Assistiu-se, ao longo do século vinte, a alterações de fundo nos processos de formação; o paradigma de educação profissionalizante, baseado no racionalismo técnico, foi cedendo espaço a uma epistemologia da prática, que tem como ponto de referência a competência subjacente à boa prática profissional: a racionalidade crítica. Consideramos, no entanto, que estes paradigmas não são antagónicos ou dicotómicos, diferindo na sua racionalidade, eles apresentam aspectos comuns e completam-se.
Em função dos desenvolvimentos, no decurso dos últimos anos, o ensino deixa de estar centrado no professor, enquanto pessoa que sabe e transmite os seus conhecimentos a quem não sabe (o aluno) e, passa a centrar-se cada vez mais no segundo. É o aluno que passa a ser o foco de atenção do processo ensino-aprendizagem, no entanto, sozinho, este não consegue identificar as áreas de “não saber”, pelo que, quer a aprendizagem seja assistida, autónoma, ou coexistente, a aprendizagem dirigida não pode ser “abandonada” pelo professor.
Relativamente à formação em Enfermagem, as mudanças são também reflexo da evolução da sociedade em geral. O ensino de enfermagem sempre teve uma forte ligação com o contexto de trabalho, dada a natureza essencialmente prática da profissão. Sendo o seu âmbito de acção uma área sujeita a permanentes transformações ao nível dos saberes, confrontamo-nos com a necessidade de pensar e repensar o processo de formação inicial e as práticas, bem como, as competências essenciais ao desempenho da profissão, num ambiente, também ele em permanente transformação.
Os anos oitenta trouxeram transformações importantes, no que respeita à evolução da escola e do ensino de enfermagem, pois, concretizou-se a integração do ensino de enfermagem no Sistema Educativo Nacional, ao nível do Ensino Superior Politécnico. Pretendeu-se, então, proporcionar aos alunos de enfermagem uma formação sólida em termos técnicos e culturais e, facilitar o desenvolvimento de capacidades de inovação e análise crítica. No entanto, as escolas estão numa fase de desenvolvimento em que procuram fazer face à carência de enfermeiros, vendo-se obrigadas a duplicar o número de admissões de alunos ao curso, o que implicou uma revisão das metodologias de ensino, especialmente, no que concerne ao ensino clínico, levando a que se procure nos serviços hospitalares e centros de saúde, parte das respostas para o acompanhamento dos seus alunos em ensino clínico.
O Decreto-lei 166/92 de 5 de Agosto, põe definitivamente em causa a continuação das antigas metodologias de orientação de alunos em ensino clínico, ao definir o regime aplicável ao pessoal docente das Escolas Superiores de Enfermagem, nomeadamente, no que respeita ao tempo de contacto directo com os alunos (in Carvalhal 2003). Assim,“sendo a formação dos enfermeiros baseada no princípio de alternância, tendo como pressuposto métodos pedagógicos centrados no estudante…o sucesso da formação deverá basear-se numa estreita articulação entre o mundo do trabalho e a escola, numa partilha sistemática de experiências onde o processo formativo seja o seu principal objectivo” (Ramos, 2003: 6).
Neste âmbito, a participação de um novo actor no processo pedagógico – o enfermeiro da prática clínica – tem vindo a assumir um papel preponderante no ensino clínico, facilitando a integração dos alunos nos serviços e supervisionando a sua aprendizagem.
Face aos novos desenvolvimentos, as escolas têm vindo a implementar protocolos/parcerias com as organizações onde se desenvolve o ensino clínico dos alunos, tendo por base legislação aprovada. No entanto, a colaboração dos enfermeiros dos serviços na supervisão de alunos em ensino clínico, estando longe de ser uma questão pacífica, parece-nos mesmo “… constituir preocupação em muitos países,… incidindo principalmente nos tipos de orientação, nas qualidades dos orientadores e na dicotomia entre o que se ensina e o que se pratica, …” (Pinto, 2000: 91).
É realmente irreversível o facto de que a colaboração mútua é imprescindível, no entanto, segundo Pinto (2000), esta deve concretizar-se sob a forma de um modelo em que ambas as partes possam beneficiar e contribuir para o desenvolvimento do aluno, do profissional e da profissão.
A qualidade da supervisão disponibilizada aos alunos é fundamental no processo de construção do seu conhecimento pessoal e profissional, no desenvolvimento das capacidades crítico-reflexivas e na consolidação da identidade profissional.
Queirós et al. (2000: 21) refere que, “...a educação centrada no aluno e no desenvolvimento da reflexão, na e sobre a acção, devem ser a pedra de toque que permitirá a mudança do currículo tradicional para um outro perspectivado para as novas realidades socioculturais do século XXI. Parece-nos que esta mudança requer que, também em enfermagem, se considere a aprendizagem reflexiva como um elemento central, numa perspectiva de construção de saber baseado no lema de aprender a aprender. Serão estratégias de ensino criativo que conduzirão os alunos a uma motivação mais intrínseca e congruente, com uma conceptualização moderna de enfermagem que sem descurar a técnica, exige uma atitude crítica e reflexiva sobre as situações e permite a tomada de decisão informada e centrada na pessoa.
Por sua vez, “quem forma e ensina profissionais para a saúde deve reflectir (des) construtivamente a complexidade dos saberes científicos, em função dos aprendentes e das situações que, nos contextos reais da praxis profissional se lhe apresentam e deve fazê-lo de forma não standard..”. (Sá-Chaves, 2000: 103). Os profissionais devem ser formados para o incerto, para o instável, para o dinâmico, para o imprevisível desconhecido e para a necessidade de, a cada momento, serem capazes de responder às questões com que se irão defrontar.
Neste contexto, encontramos fundamento em Schön (1983), ao considerar que a formação reflexiva deve contemplar situações onde o formando possa praticar sob a supervisão de um profissional competente que, simultaneamente orientador, conselheiro (coach)  e companheiro, lhe faz a integração e ajuda a compreender a realidade, que pelo seu carácter desconhecido, se lhe apresenta, inicialmente, sob a forma de caos (mess).
Schön (1983), considera que a componente profissional prática (praticum) permite uma reflexão dialogante sobre o observado e o vivido, conduzindo para a construção activa do conhecimento na acção, segundo uma metodologia de aprender a fazer fazendo (learning by doing).
Segundo Alarcão e Tavares (1987), entre os vários cenários de supervisão que se podem configurar, face às necessidades de formação em contexto real, foi desenvolvido o “cenário clínico”. Neste cenário, o papel do supervisor é o de ajudar a reflectir sobre a prática pedagógica do supervisando, com a finalidade de a melhorar e, consequentemente, melhorar a aprendizagem.
Perante o panorama actual, em que a disciplina de enfermagem se reveste de profundas mudanças no sentido de se afirmar e de construir o seu corpo de conhecimentos, não podemos esquecer que é fundamental que, quer em contexto escolar, quer em contexto da prática, a formação de estudantes e profissionais reflexivos requer uma supervisão sistemática. Esta supervisão deverá ser percebida como um processo em que um docente, ou profissional experiente sustenta, orienta, ajuda a reflectir e aconselha um estudante ou profissional, na construção do seu conhecimento, tendo em linha de conta a ecologia das situações.
É sob estes contornos que o termo “supervisão clínica”, com o qual ainda estamos pouco familiarizados, tem vindo a ganhar consistência no discurso dos enfermeiros, à medida que alguns investigadores têm desenvolvido trabalhos nesta área.
São inúmeras as definições de supervisão clínica. Embora diferentes, todas se tocam. O documento “A Vision for the Future”, (NHSME 1993), descreve a supervisão clínica como um processo formal de sustentação da prática, uma aprendizagem que permite aos profissionais desenvolver os conhecimentos, as competências e a consciência da responsabilidade da prática clínica, realçar a protecção do consumidor de cuidados e incrementar a segurança nas práticas em situações clínicas complexas. É central ao processo de aprendizagem e à expansão da prática e deve ser vista como meio de incentivar a auto-avaliação e as competências analíticas e reflexivas.
Em 1996 a United Kingdom Central Council for Nursing descreve a supervisão clínica como forma de promover a reflexão através da prática, identificar soluções para os problemas, de melhorar a prática e aumentar a compreensão das acções profissionais.
Essencialmente, a supervisão clínica é uma estrutura e um processo que deve ser revestido de princípios de prática reflexiva. Segundo Bond e Holland (1998), a supervisão clínica exige que seja contemplado o tempo necessário para facilitar a reflexão detalhada sobre a prática clínica.
Com o objectivo de permitir ao supervisando alcançar, sustentar e desenvolver criativamente uma alta qualidade de práticas, devem-lhe ser facultados meios de apoio e desenvolvimento acompanhado. O supervisando deve reflectir sobre o papel que desempenha como indivíduo na complexidade dos eventos e sobre a qualidade das suas práticas. Esta reflexão é facilitada por uma pessoa mais experiente que tem perícia para o acompanhamento e, através de sessões frequentes e contínuas, o orienta de acordo com a ecologia das situações.
Para Cottrell (2000), a função do supervisor clínico em enfermagem consiste em sustentar a formação e a actividade profissional dos supervisandos, tendo sempre em conta a prestação de cuidados de qualidade ao cliente e, ainda, promover a mudança positiva, educar, monitorizar, recomendar, desafiar, pesquisar e desenvolver o espírito crítico dos mesmos. O seu papel é central à promoção de uma prática com o máximo de qualidade, sendo que, o determinante principal da eficácia do relacionamento supervisivo é a qualidade do mesmo.
Ainda, segundo o mesmo autor um supervisor clínico em enfermagem deve ser identificado em função dos seguintes atributos:
Perícia - o reconhecimento pode ser informal, através da habilidade, da experiência, ou do status e da formação. O reconhecimento informal pode vir dos pares, pois a perícia formal pode ser transmitida pela confiança.
Experiência - o supervisor clínico em enfermagem será reconhecido como tendo a profundidade da experiência no seu campo de especialidade. A prática clínica é altamente desejável.
Aceitabilidade - é de extrema importância que o supervisor clínico seja aceite por aqueles que ele supervisiona.
Formação - é desejável que todos os supervisores clínicos recebam formação em supervisão clínica no início da sua actividade supervisiva, bem como formação contínua. A formação básica é considerada necessária mas não suficiente para assegurar elevada qualidade em supervisão. A formação e experiência adicionais em supervisão, são consideradas essenciais para ajudar a desenvolver competências supervisivas.
Para que se estabeleça uma boa relação supervisiva, Cottrell (2000) citando Hagler, refere que é essencial identificar-se no supervisor, algumas características consideradas fundamentais, como a empatia, o positivismo e a paciência.
Em termos de conclusão gostaríamos de referir que a problemática da supervisão não é recente, sempre existiu, até porque sempre existiu supervisão. No entanto, actualmente assume outras proporções, enquanto objecto de estudo dos investigadores. O ensino passou a estar centrado no aluno e a formação em contexto da acção passou a ser fundamental, sob o ponto de vista da articulação dos conhecimentos com a prática e socialização do aluno. Face a estas evoluções, no que remete para o ensino em enfermagem, verificam-se algumas dificuldades na resposta à supervisão do aluno em contexto clínico; quer pelo elevado número de alunos que as organizações de saúde recebem, quer pela dificuldade em assegurar a qualidade da supervisão por motivos de vária ordem, nomeadamente, a falta de formação específica dos profissionais.
No nosso País estão em desenvolvimento os primeiros estudos científicos sobre a problemática da supervisão clínica, alguns destes em contexto académico. A Escola Superior de Enfermagem de S. João em parceria com a Unidade Local de Saúde de Matosinhos, encontra-se, actualmente, a desenvolver um trabalho na área da supervisão clínica, em contexto da prática, integrado num Projecto Europeu, multinacional – Leonardo da Vinci – que se reporta ao tema “Learning during education and in the clinical field” – Project number: N/O/B/PP -155.010.
Este projecto, visa desenvolver um modelo transnacional de supervisão clínica, construído a partir da identificação da necessidade de aquisição de competências, definidas pelos enfermeiros da prática clínica. Estas necessidades foram identificadas em vários Países da Europa, sendo posteriormente comparadas com as  descritas num estudo efectuado na Noruega,  (país onde a prática de supervisão clínica tem já alguma tradição).
Os resultados deste estudo demonstraram que os supervisores clínicos não têm as competências e habilidades necessárias ao apoio de estudantes no desenvolvimento de habilidades de enfermagem; não existe um programa específico em supervisão clínica baseado nas necessidades e competências identificadas pelos profissionais; os estudantes deparam-se com um fosso entre a teoria e a prática; as escolas e universidades onde se ensina enfermagem necessitam de desenvolver um modelo de ensino que melhore a qualidade e o acesso a um estágio contínuo e a aquisição de habilidades e competências ao longo da vida; o sector da saúde necessita assegurar a qualidade de dos cuidados de enfermagem; identificam ainda a necessidade de recrutar e manter profissionais competentes, que possam contribuir para a inovação e desenvolvimento dos cuidados, em contextos cada vez mais complexos.
A nossa participação no referido projecto advém precisamente da problemática que envolve este discurso, onde a supervisão de alunos em ensino clínico e a formação específica de supervisores clínicos assumem um papel extremamente relevante, uma vez que à supervisão clínica falta geralmente uma abordagem centrada no aprendiz e porque docentes, supervisores clínicos e estudantes necessitam de apoio na criação de condições apropriadas para aprenderem na perspectiva ecológica da situação.
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BIOÉTICA E QUALIDADE DE CUIDADOS DE SAÚDE:
UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA

Autores: Cristina Barroso Pinto; Wilson Correia Abreu

 

1 - NOTA INTRODUTÓRIA: ÉTICA, SAÚDE E SOCIEDADE
“La Bioética es un fenómeno transcultural, pero que a la vez se sustenta en la multiculturalidad. Por tanto, sería un error transplantar miméticamente construcciones propias de contextos primermundistas a nuestras culturas… [Cuba] La ética de Enfermería se ha centrado en la cuestión de la virtud y el cuidado, sin embargo, las nuevas exigencias de la profesión requieren de un cambio cualitativo del modelo de atención que considere con mayor énfasis el papel de los valores en la toma de decisiones”
Ramos e Sariego, 2001:1
Em 1984 realizou-se a primeira Conferência sobre políticas de saúde, ética e valores humanos, sob a égide da OMS. Debateu-se a necessidade de definir uma perspectiva universal de bioética, sem prejuízo de considerar que as problemáticas levantadas pela mesma devem ser cultural e localmente analisadas. A diversidade não deveria prejudicar análises integradas em matéria de políticas de saúde, ética e valores humanos. Uma década depois, concluiu-se ser difícil definir a pretendida perspectiva universal, mas começou a trabalhar-se em torno de uma "agenda global para a ética", identificando consensos sobre princípios essenciais da bioética e a introdução de preocupações de ordem ética nos discursos sobre direitos humanos, políticas de saúde e formação dos profissionais de saúde.
Oddi, Cassidy e Fisher (1995) publicitaram, na década de noventa, os resultados de uma investigação centrada nas representações que um grupo de enfermeiros possuía sobre bioética, sensibilidade ética e acções eticamente consistentes. O estudo realizava-se numa altura em que a área da bioética, baseada na lei, cultura, políticas institucionais e valores, se tornava cada vez mais complexa.
Para Oddi, Cassidy e Fisher (1995), uma prática eticamente consistente requer sensibilidade moral e uma acção moralmente aceitável no contexto da cultura de referência. A sensibilidade moral seria relevante para o reconhecimento de conflitos de ordem moral (actuais ou potenciais), centrados nos direitos, nos deveres ou nos princípios. Por outro lado, a acção “moralmente aceitável” (atributo sempre difícil de definir) consistiria na capacidade de pensar e agir de forma congruente com os padrões culturais vigentes. Sem a capacidade de identificar as dimensões morais numa determinada situação, os enfermeiros não seriam capazes de tomar as decisões mais apropriadas. Nas conclusões do estudo, os enfermeiros disponibilizavam-se para abordar questões de ordem ética, embora não se sentissem preparados para identificar quais seriam as atitudes mais apropriadas. Os investigadores salientam que os enfermeiros não tiveram oportunidade de participar em debates consistentes sobre complexidades éticas durante o seu trajecto de formação, o que afectaria não apenas a sua capacidade de intervenção a nível profissional mas também a sua condição de cidadãos.
O universo de questões de ordem ética com que se confrontam os enfermeiros no quotidiano é cada vez mais complexa. É igualmente significativo o leque de dimensões e estratégias a considerar durante o processo de formação destes profissionais, de forma a promover as disposições para identificar problemas éticos e as competências necessárias à tomada de decisão. Pretendemos, com esta breve reflexão, contribuir para o debate sobre uma dimensão particular, considerada estruturante em modelos de avaliação da qualidade em saúde: o respeito pela diversidade cultural. Analisaremos a relação contingente entre a bioética e a antropologia da saúde e tentaremos deixar alguns subsídios para identificar os desafios que se colocam nesta área.
As preocupações de ordem ética sobre as práticas de saúde não são novas nem tão pouco exclusivas da civilização Ocidental. Arthur Kleinman, psiquiatra e eminente antropólogo, defende que as sociedades humanas sempre desenvolveram instâncias culturais com o objectivo de explicar e tratar as doenças e os males a elas associados. As práticas sociais desenvolvidas no seio e em torno destas entidades, sublinha o autor, fizeram emergir um conjunto de preocupações de ordem moral ou com uma conotação moral, que hoje classificaríamos “de ordem ética”. Dispomos hoje de alguma informação para admitir que no Antigo Egipto, na Mesopotâmia ou na China Milenária se debatiam os contornos das práticas assistenciais, bem como a sua legitimidade face às matrizes socioculturais vigentes. Séculos depois, no contexto da medicina na antiga Grécia, Hipócrates separa a medicina da superstição, magia ou religião. No mundo islâmico, por exemplo, identificam-se nas obras de Al-Razi ou Ibn-Sina diversas preocupações de ordem ética. A própria Sharia (lei islâmica) fornece determinados princípios religiosos que os profissionais de saúde devem respeitar. Adab, um conceito moral que é inerente à ética médica islâmica, surge da integração da tradição hipocrática na cultura e medicina islâmicas (Nanji, 1988). O problema que se coloca, explica Abreu (2003), é que estas preocupações de ordem ética.
Na civilização ocidental actual, os debates em torno da bioética multiplicam-se de forma exponencial A pesquisa produzida sobre esta matéria, desenvolvida por investigadores de diversos sectores profissionais, indica que esta tendência reside na crescente complexidade dos cuidados de saúde e na dificuldade, também ela crescente, de tomar decisões no contexto deste progressivo desenvolvimento tecnológico.
Esta realidade está também associada à visibilidade crescente de determinadas problemáticas que inspiram e ocupam os “mass media”: a "revolução biológica" desencadeada pela descoberta do DNA, as pesquisas em torno do genoma humano, a clonagem, os transplantes. Lembremo-nos das apaixonadas discussões de ordem ética quando Christian Barnard, um notável cardiologista sul-africano recentemente falecido, realizou na África do Sul o seu primeiro transplante cardíaco!

................Este artigo continua... Consultar a Revista respectiva ..................................

6 – CONCLUSÃO
Nenhum profissional de saúde nega que a abordagem dos problemas de ordem ética é, por natureza, uma abordagem multidimensional e complexa. Muitos destes problemas evoluíram mais rapidamente do que a própria capacidade das sociedades em os resolver ou estabelecer consensos mínimos. Nas sociedades democráticas e multiculturais o grau de complexidade é ainda mais elevado, uma vez que a diversidade de padrões culturais está cada vez mais associada ao respeito e preparação para lidar com a diferença.
E é sem dúvida na formação inicial e na realizada em contexto de trabalho que pode estar a "chave" para uma melhoria consistente da capacidade dos enfermeiros valorizarem o pensamento, a sensibilidade e a tomada de decisão informada pela ética. Benner (1997) considera que o ponto de partida para a definição de matrizes éticas deve ser a realidade humana; face aos problemas que colocam em causa a dignidade, os direitos e o bem-estar, os princípios tradicionais de referência seriam insuficientes. "The moral and emotional work of meeting the other and caring for the other in situations of need and vulnerability are hidden in the language of rights, autonomy and justice" (Benner, 1997: 160). Hogan (1973) considera que o comportamento moral é essencialmente determinado por cinco factores: (1) natureza do processo de socialização (partilha das práticas e dos padrões culturais) (2) capacidade de fazer juízos morais (auto-conhecimento e definição da constelação própria de valores) (3) capacidade de possuir sentimentos morais (capacidade de se sentir penalizado ou culpado perante um erro) e (4) empatia (ter consciência da situação, dos sentimentos e das necessidades das pessoas que o cercam, de forma a encetar processos de ajuda) (5) confiança e conhecimento (ter formação sobre as formas como deve ajudar e acreditar nessa capacidade de ajuda). Uma parte relevante do desenvolvimento de competências nesta área, que Vygotsky designa de zona de desenvolvimento proximal, depende da influência de factores de natureza pouco formal ou mesmo considerados "marginais" pelas estruturas organizacionais.
Estas exigências, centradas na bioética e no respeito pela diversidade cultural, reflectem-se de forma determinante no funcionamento das organizações de saúde. Os modelos de acreditação e os consequentes modelos de organização das instituições (guidelines, normas, protocolos, indicadores) dão corpo às preocupações de ordem ética que, também elas, podem envolver determinantes de ordem legal e disciplinar.
Na área da diversidade cultural, uma das prioridades da União Europeia, o desafio que se coloca à bioética é idêntico ao que se coloca às estruturas e organizações sócio-políticas, incluindo nestas as próprias ciências da saúde.
Segundo Fox (1994), a bioética deve responder aos diversos desafios e valores culturais de cada sociedade, privilegiando a imaginação sociológica em detrimento da hermeticidade. Poderão, no entanto, identificar-se princípios universais?
No sentido em que colocamos a questão, a resposta parece óbvia: não existe e dificilmente existirá uma bioética universal. Da mesma forma, não parecem existir razões plausíveis para se optar entre relativismo cultural e universalismo. No entanto, não podemos negar a existência de fluxos de informação e de pessoas entre as sociedades, elas próprias também em mutação. Neste sentido, seria pertinente perfilhar um realismo moral e, na senda de Kohlberg (1976), adoptar uma atitude racional face aos valores.
A aceitação do valor intrínseco das culturas permite entender a dificuldade em delinear uma axiologia comum e de características aceites por todos. A resolução do dilema poderia resultar da adopção de uma premissa simples: as várias culturas devem aceitar como válidos determinados valores que permitem defender e preservar a dignidade e os direitos humanos. Valores como a vida, a liberdade, a responsabilidade, a solidariedade, a verdade, a justiça, a coerência, afiguram-se-nos como podendo constituir pilares adequados para a construção do edifício ético comum às culturas humanas.
Castro (1999), colocando-se perante a controvérsia da existência de uma bioética asiática, defende que deve existir uma base bioética suficientemente flexível para se investir num “consenso bioético”. A progressão do conhecimento e das tecnologias da saúde permite prever um conjunto de desafios que em breve se irão multiplicar. A engenheria genética, a clonagem humana, a manipulação e as terapias genéticas, estão naturalmente entre os que suscitarão maior debate. Mas existe igualmente um conjunto de problemáticas que geram no quotidiano dificuldades de ordem ética e que devem continuar a preocupar os enfermeiros: início e fim de vida, consentimento informado, diagnóstico de enfermagem, avaliação do grau de dependência, continuidade de tratamentos, interrupção da gravidez, recusas de tratamento e disponibilização de informação.
Parece cada vez mais actual o princípio ontológico segundo o qual o homem é produto das relações sociais. Neste sentido, a enfermagem tem necessidade de introduzir mudanças qualitativas no seu próprio contexto enquanto disciplina, como forma de definir um papel mais interventivo na área da saúde. Áreas como a acessibilidade da população aos cuidados de saúde, equidade na prestação dos cuidados, justiça, promoção da autonomia, respeito pela diferença e promoção da qualidade devem integrar, desde a escola, as preocupações éticas dos enfermeiros.
A composição multicultural dos países coloca problemas à assistência de utentes com diferentes identidades culturais e religiosas. É necessário proceder a uma análise atenta para determinar quais os valores que podem ser preservados no âmbito de cada cultura, tendo sempre como referência o respeito pela autonomia, pela justiça e pelas diferenças culturais. O que emerge da intersecção entre a antropologia e a bioética é a conclusão de que pode existir uma ética multicultural, informada pela filosofia relativista mas definida em torno dos direitos humanos.

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SMITH , D. (2001). Notes on a pilgrimage to science: a fly on the wall. SEE, 7(4):615-34
TANGWA, G. (1996). Bioethics: an African perspective. Bioethics, 10(3): 183-200      
TANGWA, G. (1999). Globalisation or Westernisation? Ethical concerns in the whole bio-business. Bioethics. 13(3-4): 218-226

 


 

 

Sigilo Profissional e a Passagem de Turno

 

Autora: Maria da Conceição Osório – Enfermeira H. Pedro Hispano

Palavras-chave: Sigilo profissional; Passagem de turno

Resumo: A passagem de turno é um momento importante na prática de todos os enfermeiros, efectuada tradicionalmente na sala de trabalho, começa nos dias de hoje a ser alterada e transfere-se para as enfermarias. Tenta-se desta forma um maior envolvimento do utente e família no processo de tratamento e na tomada de decisões. Com esta alteração o sigilo profissional pode estar em causa se alguns cuidados não forem tomados.

 


 

PREVENÇÃO E TRATAMENTO DE ÚLCERAS DE PRESSÃO NA COMUNIDADE

Autoras: Eugénia Nunes Grilo; Isabel Mendes 

RESUMO: Este trabalho surgiu  da necessidade de intervir de uma forma mais organizada e activa na prevenção de úlceras de pressão(U.P.)a nível da comunidade. Pretende salientar a importância dos recursos tanto humanos como materiais. É resultado de alguns meses de trabalho desenvolvido com profissionalismo, e evidencia a importância da educação para a  saúde e da prevenção, actividades privilegiadas do trabalho na comunidade, salientando a importância do enfermeiro de referencia 

PALAVRAS CHAVE:Ulceras de pressão ;Comunidade ;Prevenção; Avaliação

INTRODUÇÃO

Decorrente da circular informativa da D.G.S. nº 25/D.S.P.C.S. sobre ulceras de  pressão, e após análise do seu conteúdo em reunião de Enf.ros Chefes, a Sra. Enf.ra Directora nomeou um grupo de trabalho, que operacionalizasse  a referida circular.
Este trabalho tem presente dois aspectos fundamentais: o primeiro refere-se às medidas preventivas na área das U.P. e o segundo à qualidade dos cuidados prestados pelos enfermeiros. Assim sendo definiram-se os seguintes objectivos:
-         Conhecer as necessidades de intervenções de enfermagem em utentes idosos e dependentes na área de influência do Centro de Saúde de V.V.de Ródão, S.R.S.de Castelo Branco.
-         Identificar os utentes com risco de desenvolver ulceras de pressão
-         Prevenir o seu aparecimento através de medidas adequadas
-         Obter registo sistematizado sobre o aparecimento de U.P. no domicilio
-         Optimizar recursos humanos e materiais no tratamento das U.P.
-         Avaliar ganhos em saúde nesta área através da utilização de alguns indicadores.
Este é um projecto de enfermagem de intervenções autónomas para ser desenvolvido por enfermeiros no âmbito das suas qualificações profissionais tendo por base a relação de ajuda (Art.4º e Art.5 do Dec.Lei 161/96 de 4 de Setembro).

 


 

NIDCAP® Uma realidade possível…

Autora. Madalena Ramos 

 

INTRODUÇÃO
A característica sofisticação tecnológica das modernas Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN’s), tem repercussões no desenvolvimento da criança (American Academy of Pediatrics,  1997;  Benini et al. 1996; Zahr, & Balian , 1995; Oehler, 1996; Blackburn, 1998). O recém-nascido de termo, beneficia rapidamente duma estabilização dos seus sistemas, após o nascimento. Ao contrário, o pré-termo é um ser cujas competências comportamentais não estão ainda adaptadas ao ambiente extra-uterino, pelo que as condições ambientais da UCIN o impedem de usufruir dos benefícios das estimulações, que se revelam excessivas e prematuras.
A exposição permanente a uma luz branca e fria, como a fluorescente, é, para pré-termo, um estímulo inapropriado do meio ambiente (Ostfield, 1990). Esta intensa e constante luminosidade, interfere nos padrões de repouso e nos ritmos circadianos (Ackerman et al., 1989; Blackburn & Patteson, 1991; Blackburn, 1996; Bullough & Rea, 1996).
Berens e Weigle (1995,1997) referem que as incubadoras e os ventiladores são dos equipamentos aos quais são atribuídos níveis mais elevados de poluição sonora, em simultâneo com a actividade dos profissionais (Graven et al., 1992, 1997).
A frequência da manipulação das as crianças na UCIN, aumentou significativamente em poucos anos. Murdoch & Danford et al (1983) verificaram uma média de 234 manipulações em 24 horas de observação, e que estas chegam a ocorrer em média todos os 5-20 minutos, sendo as enfermeiras as principais responsáveis por essas intervenções, seguidas dos pediatras e finalmente pelos pais (Gottfried, 1985).
Associado aos procedimentos foram registadas alterações, nomeadamente ao nível dos sinais vitais, pelo que não só as consequências dos procedimentos estão em causa, mas também o facto de estes se repetirem inúmeras vezes, potenciando a adversidade dos seus efeitos (Danford et al., 1983; Evans, 1991; Murdoch & Darlow 1984; Wolke, 1987; Pacheco, 2001).
Heidelise Als, uma psicóloga americana, que começou a observar pré-termos nos finais dos anos 60, desenvolveu um trabalho considerado pioneiro nesta área. No início da década de 80, divulgou a sua teoria, centralizada na habilidade do recém-nascido em interagir com o meio envolvente (Als et al., 1986). O recém-nascido, cujo sistema nervoso continua o seu desenvolvimento, mesmo após o nascimento, tem agora de se ajustar a um ambiente de sobrecarga sensorial (Wolke, 1987; Gottfried & Gaiter, 1985; Berens & Weigle, 1997). Nesta perspectiva, a adaptação entre estímulos ambientais e as expectativas do sistema nervoso em desenvolvimento, requerem um gasto energético acrescido, sobretudo no caso do pré-termo (Als, Lester, Brazelton, 1979; Als & Gilkerson, 1997).
A teoria de Als, assenta na avaliação individual do recém-nascido, permitindo uma adaptação ao ambiente da unidade e dos cuidados, na sua globalidade e integrando os pais, como actores indispensáveis na relação com o recém-nascido (Als, 1986).
O  NIDCAP®
(Newborn Individualized Developmental Care and Assessment Program)

O modelo de Cuidados Desenvolvimentais Individualizados e Programa de Avaliação para o Recém-nascido (NIDCAP®), foi elaborado com o objectivo de implementar a filosofia de cuidados centrada na família, numa perspectiva do desenvolvimento (Als & Gilkerson, 1997).
Este programa pretende proporcionar orientações educacionais e treino específico, em avaliação e observação comportamental, da equipa multidisciplinar responsável pela assistência ao recém-nascido de risco e à sua família. Baseando-se na observação naturalista, sistematizada e semanal, do recém-nascido (Westrup et al.,2000), utilizando uma grelha de avaliação, inspirada nos trabalhos desenvolvidos por Brazelton.
A observação realizada antes, durante e depois das intervenções, permite definir as estimulações adaptadas ou seja as que provocam comportamentos de aproximação, e simultaneamente identificar o limiar da desorganização de um ou mais dos sub-sistema envolvidos, bem como as estratégias utilizadas pelo recém-nascido, para manter a auto-regulação global. A partir destas observações, é elaborado um plano holístico de cuidados, discutido pela equipa de saúde com a participação dos pais (Montgomery, 1998; Westrup et al., 2000).
As áreas de intervenção centram-se no controlo dos estímulos externos (vestibular, auditivo, visual e táctil), agrupamento dos cuidados de enfermagem e dos outros profissionais, posicionamento e parceria parental nos cuidados a prestar ao recém-nascido (Als, 1996):

-O ambiente é modificado com a finalidade de adaptar a intensidade dos diferentes estímulos ambientais, já referidos anteriormente, às competências da criança - reorganização funcional e arquitetónica, redução do nível sonoro e de luminosidade, reflexão sobre a pertinência e necessidade da realização de alguns procedimentos invasivos (Blackburn, 1996).
-A concentração dos cuidados em períodos limitados, através da coordenação global da equipa de saúde, permite preservar a organização do sono ao favorecer períodos de repouso (Torres et al., 1997). Pelo contrário, os períodos de alerta devem ser aproveitados para a prestação de cuidados e se o bebé o suportar, para encorajar as interacções sociais, particularmente com os pais.
-O posicionamento da criança na incubadora, deve preservar a posição natural em flexão, para promover a estabilização motora e vegetativa. A contenção, a sucção, o aconchego, durante as intervenções ao recém-nascido, podem ser um contributo valioso, para conseguir a estabilização (Ulrich, 1991; Medoff-Cooper & Ray, 1995; Drosten, 1997; Beckman, 1997).
Os sinais comportamentais do recém-nascido, são ensinados aos pais que são incentivados à participação activa nos cuidados desenvolvimentais - contacto pele com pele, estimulação táctil, massagem (Ludington, 1990; Sloan et al., 1994, Bauer et al., 1997) – permitindo um melhor conhecimento e acompanhamento da evolução do seu filho.

 


 

OSTOMIA E AMANHÃ?

 

AUTOR: DUARTE MIGUEL VIEIRA FERNANDES

PALAVRAS CHAVE: AUTO-IMAGEM; AUTOCONCEITO; SENTIMENTO DE MUTILAÇÃO, DESFIGURAMENTO

Resumo: Apesar das orientações fornecidas ao utente anteriormente à Cirurgia, o “adquirir de um estoma” pode figurar-se como um problema ou, como um desafio.
O Enfermeiro de Cirurgia é com a sua intervenção o apoio precoce, que poderá ajudar a minimizar a situação que o utente ostomizado possa vivenciar. Tem a possibilidade de transmitir que um estoma é um “arranjo” que poderá salvar a vida e é compatível com a participação activa na vida social e profissional.
O conhecimento da problemática não apenas ao nível físico, mas também ao nível psíquico e social, que apresentam estes indivíduos, contribui para que o enfermeiro preste uma maior atenção e melhor assistência a este tipo de doentes.

 


 

QUAL O ANGULO  DE ELEVAÇÃO DA CABECEIRA DO TCE:  0º;15º; 30º;45º;OU MAIS?/ENFERMAGEM BASEADA NA EVIDENCIA

 

AUTORA: Enf. Fernanda Borges 

INTRODUÇÃO:
A prática baseada na evidência é vista como uma forma de prestar um cuidado de saúde eficaz, sendo considerada vital no actual ambiente dos cuidados de saúde .
O basear do cuidado de saúde em evidências sólidas é visto como uma das formas através das quais a gestão clínica se pode revestir de sucesso ( NHS EXECUTIVE, 1999) [1].
Parece evidente que tal evidência se deva transmitir nos artigos científicos.
“ ainda não esta clara a posição em que se deve colocar estes doentes , até à pouco tempo elevava-se a cabeceira com objectivo de manter a drenagem venosa e assim diminuir a PIC, mas recentemente Rosner demonstrou que se provocava uma descida da perfusão cerebral e uma vasodilatação em cascata , pelo que é aconselhado manter o doente plano(0º) e com o pescoço alinhado para não afectar a drenagem venosa [2].  Na elaboração deste trabalho serão abordados os seguintes aspectos :
A- MONITORIZAÇÃO CEREBRAL
B-FISIOLOGIA DA CIRCULAÇÃO CEREBRAL
C-VOLUME SANGUINEO CEREBRAL
D-PIC(PRESSÃO INTRACRANIÂNA)
E-O EFEITO DO POSICIONAMENTO SOBRE A HEMODINÂMICA CEREBRAL E A PIC
F-ANÁLISE DOS ARTIGOS
Um dos principais conceitos actuais , é o de que, o dano neurológico, não resulta somente do impacto no momento em que se produz a (lesão primaria) , mas é  o resultado de outros eventos que ocorrem nas horas ou dias seguintes (lesão secundaria). Como a lesão primária não é evitável ( contusão hemorrágica, lesão axonal difusa, hemorragia subaracnoideia e hematomas cerebrais, subdurais e extradurais ), a nassa atenção deve incidir na prevenção das lesões secundárias (hipoxia, hipotensão, hipercapnia, anemia, hipertermia, e hipertensão intracraniana).
O objectivo no manuseio do doente com TCE é a prevenção da lesão secundária do cérebro.

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Acidentes em serviço, no âmbito da Administração Pública - Enfermagem

 

AUTORES: Armanda Torre; Carla Fernandes; Fernando Santos

Na Função pública vigora o Decreto de Lei n.º 503/99 de 20 de Novembro, que define os direitos dos trabalhadores, incluindo os enfermeiros quando vítimas de um acidente de trabalho. Os autores pretendem com este artigo, alertar o leitor para os seus direitos e o interesse  deste em participar o acidente.
Os Acidentes em serviço na função pública, especificamente na enfermagem escapam á elaboração de estatísticas credíveis, que nos permitam tirar conclusões rigorosas e ponderadas de modo a estabelecer uma consciência objectiva da prevenção, quer por parte dos trabalhadores quer pelas direcções

 


 

AS JANELAS EXPRESSIVAS DO CORPO E DO SER

AUTORES: Manuel Alves Rodrigues; Maria José Pereira Fernandes Martins

Resumo: Os autores abordam a temática do corpo, com base na ideia metafórica de “janelas Expressivas”. O corpo, como meio expressivo poliédrico, integra diferentes ângulos e perspectivas de visão para a exterioridade e para a interioridade do ser. Evidencia-se a condição privilegiada que os profissionais de saúde possuem (em particular os enfermeiros), para compreender a linguagem do corpo, devido aos seus conhecimentos e experiência de cuidar na intimidade. Salienta-se a importância e a necessidade destes profissionais se implicarem no esforço pessoal de auto-conhecimento e de cuidado com o seu próprio corpo, bem como no estudo e investigação de técnicas terapêuticas de abordagem corporal.

 


 

O uso de luvas na prática de enfermagem no contexto de pediatria

 

Autoras:Ana Filipa dos Santos; Ana Raquel C. Silva; Cátia Andreia S. Silva; Silvia Maria A. P. Silva; Vânia Patrícia C. Ferraz 

Palavras chave: luvas; contaminação; toque

Introdução
As luvas têm sido utilizadas com diferentes critérios ao longo dos tempos. Estes critérios eram modificados em função do conhecimento científico da época. Actualmente, com o surgir de novas doenças infecto-contagiosas e multiresistentes, um clima de medo apoderou-se dos profissionais de saúde, levando-os a uma utilização por vezes exagerada das precauções universais.
No entanto, não seria correcto generalizar este facto uma vez que para alguns profissionais os longos anos de prática, a sua confiança e destreza, são justificações suficientes para a não adesão a algumas precauções universais, referentes ao uso de luvas.

Nota Histórica
Ao longo dos anos as práticas usadas no controle de infecção têm variado, embora nos últimos tempos, o ênfase seja dado a aspectos que se assemelham aos primeiros tempos.
Já no séc. XVII, na Europa, época em que a famosa peste negra dizimou milhares de pessoas, eram recomendadas roupas protectoras, mesmo sem os conhecimentos actuais sobre doenças infecciosas. O médico particular do rei Luíz XIV, Charles Delorme, idealizou um fato de couro, acompanhado por luvas e uma longa haste de madeira a fim de evitar o contacto próximo e/ou directo com os enfermos. É de salientar que naquela época, ainda não era conhecido o modo de transmissão das doenças infecciosas.
Em 1847,  deram-se os primeiros passos no controle de infecção hospitalar, pela mão de Ignaz Semmelweis, que é por muitos considerado o pioneiro desta problemática. A sua observação cuidadosa demostrou a importância vital da lavagem das mãos para a prevenção de algumas doenças transmissíveis ou aquelas provocadas por agentes infecciosos que podem ser transmitidos por uma pessoa, animal ou reservatório infectado, a um hospedeiro susceptível, ou pessoa que contraia a doença.
Em 1863, época em que todos pensavam que a infecção era provocada pelo “mau ar”, Florence Nightingale, reforça a ideia de Semmelweis dando ênfase à higiene, tanto pessoal como do ambiente.
A partir das suas observações meticulosas, foram implementadas normas genéricas, ou seja, precauções que deveriam ser utilizadas por todos os trabalhadores de saúde, junto de todos os utentes. Estas normas vieram, de facto, alterar algumas práticas em todo o mundo, mas, infelizmente, parte desta importante mensagem perdeu-se nos anos posteriores.
Com o aumento do conhecimento farmacológico e das doenças infecto-contagiosas, é dado mais ênfase ao isolamento da pessoa doente, ignorando as normas de precaução anteriormente estabelecidas.
No início dos ano 80, com o aparecimento da SIDA (síndrome de imuno-deficiência humana adquirida), os profissionais de saúde, temendo pela sua vida, readaptam medidas gerais anteriormente defendidas por Semmelweis e Nightingale. O regresso às medidas gerais de prevenção tardou, mas finalmente chegou.
Em 1987, são publicadas pelo Centers for Diseases Control – CDC ( centro de controle e prevenção de doenças) as precauções universais, segundo as quais, todos os doentes devem ser tratados como potenciais contaminadores. Além disso, incluem o uso de barreiras técnicas tais como luvas, batas, aventais, máscaras e óculos.  Estas medidas, associadas à lavagem das mãos e cuidados com material cortante e perfurante, nomeadamente não recapsular agulhas, constituem as precauções universais.

ESTE ARTIGO CONTINUA    ................=.............  SUJERIMOS A CONSULTA DA REVISTA

 


 

A Propósito da Palavra e do Cargo de Bastonário

 Autor: Jofre de Lima Monteiro Alves

Com a criação da Ordem dos Enfermeiros, para além duma nova e indelével realidade, certas palavras entraram nos nossos hábitos e colóquios, relacionáveis com essa alteração estrutural. Alguns colegas eivados de cristalina curiosidade e interessados nessas bagatelas da linguística, procuraram alcançar a origem da palavra bastonário. Bem entendido que a curiosidade, mesmo a mais fútil, é absolutamente necessária, e foi, por bastas vezes, a mola do progresso e também do conhecimento. Eis aqui em algumas linhas, quiçá fastidiosas aos pacientes leitores, mas necessariamente ligeiras, o que me apraz dizer sobre o assunto.
O vocábulo era já suficientemente conhecido e escutado, porquanto com a maior frequência surge citado na Comunicação Social, pois designa o dignitário de inúmeras profissões de cariz liberal, tais como os advogados, os economistas, os engenheiros, os farmacêuticos, os médicos, os médicos veterinários, os revisores oficiais de contas, e outras tantas que de momento não me recordo. E claro, dum tempo a esta parte, a dos enfermeiros, pois então.
É, por assim dizer, o primordial entre pares – primus inter pares –, o supremo director escolhido pelo colégio eleitoral de cada uma dessas corporações. E dirigente máximo é sinónimo de chefe, caudilho, presidente, superintendente, e de outras designações e arcaísmos resistentes. Então porquê bastonário ao invés de presidente? Vamos fazer uma curta digressão na roda da História, o meu leitor armado da couraça da imprescindível paciência, e eu de penitente por abusar da longanimidade dele.
A explicação tem natureza histórica e remonta à lonjura da Idade Média, tendo mais de seis séculos de fundadas raízes. A diversificação socioprofissional daqueles tempos originou que fabricantes e vendedores de cada um dos ofícios se estabelecessem por arruamentos fixos para melhor exercerem a vigilância sobre a concorrência desleal, agrupados em associações de solidariedade, confrarias e irmandades. Essa organização interna de cada arte ou corpo, correspondia a uma determinada marca de imagem pública, a qual era exibida nas procissões, em ocasiões festivas, a fim de se manifestar a coesão e o poder dos diversos grupos perante os olhares críticos de terceiros.
Nos cortejos, por exemplo, cada mester desfilava sobre a protecção de um santo padroeiro; à frente, a abrir o cortejo seguia o porta-bandeira da confraria, a princípio um indivíduo cuja característica mais vulgar era tão-somente a robustez, segurando um bastão ao qual estava enleado o estandarte. Não detinha outro predicado, mas a breve trecho, isso iria mudar.
Como arvorava o referido pau ou bastão passou a ser chamado bastonário, e por ir na dianteira do restante grémio, adquiriu a curto prazo maior relevância social que os demais, na medida em que marchava isolado, na frontaria da agremiação. Esta exposição fez com que, pouco tempo volvido o lugar de bastonário, por ser o mais visível, estivesse associado ao facto de ser o mesmo reconhecido como elemento essencial de cada corporação.
Andava à cabeça da turba e empunhava o bastão, tinha que ser, na essência, o mais importante. E de elemento meramente simbólico ao poder factual foi um ápice. Desponta, deste modo interessante e meramente inocente, o posto de juiz bastonário para denotar, nada mais, nada menos, do que aquele que segura, empunha, exibe o bastão. Como insígnia de comando é um atributo de profunda representação social, porquanto os monarcas e os generais na simbologia medieva e do Antigo Regime assumiam o bastão para expressar o seu mandato real.
O primeiro bastonário corporativo conhecido foi o dos advogados franceses sob o epíteto de “bastonnier” de S. Nicolau, o patrono desses profissionais, cuja honra lhe foi autenticada pelo Rei Filipe VI de França, no longínquo ano de 1342. Às corporações medievais e da Renascença e ao seu juiz bastonário cabia a correição disciplinar, zelar pelo cabal desempenho profissional, efectivar exames para verificação de mestria e competência, e passar as cartas de examinação pela qual o candidato passava a oficial aprovado e registado.
Foi do francês antigo, portanto, que recebemos a palavra bastonário. Do francês antigo na medida em que hoje os gauleses dizem “bâtonnier”. Bastão por sua vez surgiu do latim “bastum”, que significa bastão, bordão, e deu origem ao vocábulo latino “bastonariu”.
A forma bastonário para designar a mais alta autoridade dum ofício veio, na realidade, do francês, embora na Língua Portuguesa existisse anteriormente uma expressão similar, destinada a exprimir distintos afazeres de qualidade um pouco humilde: bastonário era um funcionário inferior na escala da justiça régia, oficial da vara ou o porteiro que agarrava a maça, isto é, um pau cuja extremidade era arredondada, ovóide ou esférica, com a qual fazia guarda à porta dos tribunais. Neste sentido, o de caceteiro ou de troglodita da maça, já se encontra num documento datado de 1091, fórmula mais antiga do que a outra, que significa aquele que segura o atributo ou insígnia de mando.
A dignidade ficou no limbo por onde a História adormece em sono profundo e aparente. Seria recuperada em conjuntura moderna quando da formação em Portugal do primeiro organismo corporativo, corria o ano de 1926, a qual como genuíno paradigma foi precisamente a Ordem dos Advogados, e cujo mais prestigiado dirigente recebeu semelhante tratamento, por alguém sapiente destas migalhas históricas se lembrar do pioneiro bastonário da Confraria dos Advogados de S. Nicolau. A exemplo disso mesmo todas as demais organizações passaram a assinalar o seu respectivo presidente de modo semelhante. E bastonário ficou em boa hora, por conter uma certa referência e prestígio erudito.
Por agora chega destas bastonadas na fleuma dos estóicos leitores.

Bibliografia:
NEVES, Orlando – Dicionário da Origem das Palavras, Lisboa, Editorial Notícias, 2001, p. 58
QUEIRÓ, Afonso Rodrigues – Bastonário, Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XXI, Lisboa, Editorial Verbo, vol. 4, p. 392.