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A Propósito da Palavra e do Cargo de Bastonário

 Autor: Jofre de Lima Monteiro Alves

Com a criação da Ordem dos Enfermeiros, para além duma nova e indelével realidade, certas palavras entraram nos nossos hábitos e colóquios, relacionáveis com essa alteração estrutural. Alguns colegas eivados de cristalina curiosidade e interessados nessas bagatelas da linguística, procuraram alcançar a origem da palavra bastonário. Bem entendido que a curiosidade, mesmo a mais fútil, é absolutamente necessária, e foi, por bastas vezes, a mola do progresso e também do conhecimento. Eis aqui em algumas linhas, quiçá fastidiosas aos pacientes leitores, mas necessariamente ligeiras, o que me apraz dizer sobre o assunto.
O vocábulo era já suficientemente conhecido e escutado, porquanto com a maior frequência surge citado na Comunicação Social, pois designa o dignitário de inúmeras profissões de cariz liberal, tais como os advogados, os economistas, os engenheiros, os farmacêuticos, os médicos, os médicos veterinários, os revisores oficiais de contas, e outras tantas que de momento não me recordo. E claro, dum tempo a esta parte, a dos enfermeiros, pois então.
É, por assim dizer, o primordial entre pares – primus inter pares –, o supremo director escolhido pelo colégio eleitoral de cada uma dessas corporações. E dirigente máximo é sinónimo de chefe, caudilho, presidente, superintendente, e de outras designações e arcaísmos resistentes. Então porquê bastonário ao invés de presidente? Vamos fazer uma curta digressão na roda da História, o meu leitor armado da couraça da imprescindível paciência, e eu de penitente por abusar da longanimidade dele.
A explicação tem natureza histórica e remonta à lonjura da Idade Média, tendo mais de seis séculos de fundadas raízes. A diversificação socioprofissional daqueles tempos originou que fabricantes e vendedores de cada um dos ofícios se estabelecessem por arruamentos fixos para melhor exercerem a vigilância sobre a concorrência desleal, agrupados em associações de solidariedade, confrarias e irmandades. Essa organização interna de cada arte ou corpo, correspondia a uma determinada marca de imagem pública, a qual era exibida nas procissões, em ocasiões festivas, a fim de se manifestar a coesão e o poder dos diversos grupos perante os olhares críticos de terceiros.
Nos cortejos, por exemplo, cada mester desfilava sobre a protecção de um santo padroeiro; à frente, a abrir o cortejo seguia o porta-bandeira da confraria, a princípio um indivíduo cuja característica mais vulgar era tão-somente a robustez, segurando um bastão ao qual estava enleado o estandarte. Não detinha outro predicado, mas a breve trecho, isso iria mudar.
Como arvorava o referido pau ou bastão passou a ser chamado bastonário, e por ir na dianteira do restante grémio, adquiriu a curto prazo maior relevância social que os demais, na medida em que marchava isolado, na frontaria da agremiação. Esta exposição fez com que, pouco tempo volvido o lugar de bastonário, por ser o mais visível, estivesse associado ao facto de ser o mesmo reconhecido como elemento essencial de cada corporação.
Andava à cabeça da turba e empunhava o bastão, tinha que ser, na essência, o mais importante. E de elemento meramente simbólico ao poder factual foi um ápice. Desponta, deste modo interessante e meramente inocente, o posto de juiz bastonário para denotar, nada mais, nada menos, do que aquele que segura, empunha, exibe o bastão. Como insígnia de comando é um atributo de profunda representação social, porquanto os monarcas e os generais na simbologia medieva e do Antigo Regime assumiam o bastão para expressar o seu mandato real.
O primeiro bastonário corporativo conhecido foi o dos advogados franceses sob o epíteto de “bastonnier” de S. Nicolau, o patrono desses profissionais, cuja honra lhe foi autenticada pelo Rei Filipe VI de França, no longínquo ano de 1342. Às corporações medievais e da Renascença e ao seu juiz bastonário cabia a correição disciplinar, zelar pelo cabal desempenho profissional, efectivar exames para verificação de mestria e competência, e passar as cartas de examinação pela qual o candidato passava a oficial aprovado e registado.
Foi do francês antigo, portanto, que recebemos a palavra bastonário. Do francês antigo na medida em que hoje os gauleses dizem “bâtonnier”. Bastão por sua vez surgiu do latim “bastum”, que significa bastão, bordão, e deu origem ao vocábulo latino “bastonariu”.
A forma bastonário para designar a mais alta autoridade dum ofício veio, na realidade, do francês, embora na Língua Portuguesa existisse anteriormente uma expressão similar, destinada a exprimir distintos afazeres de qualidade um pouco humilde: bastonário era um funcionário inferior na escala da justiça régia, oficial da vara ou o porteiro que agarrava a maça, isto é, um pau cuja extremidade era arredondada, ovóide ou esférica, com a qual fazia guarda à porta dos tribunais. Neste sentido, o de caceteiro ou de troglodita da maça, já se encontra num documento datado de 1091, fórmula mais antiga do que a outra, que significa aquele que segura o atributo ou insígnia de mando.
A dignidade ficou no limbo por onde a História adormece em sono profundo e aparente. Seria recuperada em conjuntura moderna quando da formação em Portugal do primeiro organismo corporativo, corria o ano de 1926, a qual como genuíno paradigma foi precisamente a Ordem dos Advogados, e cujo mais prestigiado dirigente recebeu semelhante tratamento, por alguém sapiente destas migalhas históricas se lembrar do pioneiro bastonário da Confraria dos Advogados de S. Nicolau. A exemplo disso mesmo todas as demais organizações passaram a assinalar o seu respectivo presidente de modo semelhante. E bastonário ficou em boa hora, por conter uma certa referência e prestígio erudito.
Por agora chega destas bastonadas na fleuma dos estóicos leitores.

Bibliografia:
NEVES, Orlando – Dicionário da Origem das Palavras, Lisboa, Editorial Notícias, 2001, p. 58
QUEIRÓ, Afonso Rodrigues – Bastonário, Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XXI, Lisboa, Editorial Verbo, vol. 4, p. 392.